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Megatendências avançam, mas gargalos ainda limitam o progresso; é hora de planejar e agir para transformar potencial em resultados
O Interior Paulista vive um momento de transformação e protagonismo, mas o futuro exigirá mais que celebrações: será preciso enfrentar gargalos que ainda limitam o pleno avanço da região. As megatendências já mapeadas – digitalização de serviços, teletrabalho, agrotechs, turismo de experiência, economia criativa e sustentabilidade – mostram potencial para reposicionar o território. No entanto, infraestrutura desigual, políticas públicas intermitentes, carência de mão de obra qualificada e baixa velocidade de algumas mudanças podem comprometer o impacto dessas iniciativas. Nesta edição da Contexto Paulista, apontamos 10 pontos que exigem atenção de gestores, empreendedores e sociedade civil. São desafios concretos que pedem planejamento estratégico, investimento e diálogo para transformar tendências em resultados duradouros.
1. Desigualdade na digitalização dos serviços públicos
Embora alguns municípios tenham avançado com aplicativos, chatbots e protocolos online, outros ainda funcionam de forma totalmente presencial, obrigando o cidadão a enfrentar filas e burocracia. A falta de integração de sistemas entre cidades gera duplicidade de cadastros e perda de dados. É preciso investir em plataformas unificadas e treinamento de servidores. Parcerias público-privadas poderiam acelerar esse processo. Se não houver coordenação regional, o risco é ampliar a exclusão digital e criar “ilhas” de eficiência em meio a regiões desconectadas.
2. Falta de conectividade estável no campo e periferias
Apesar do crescimento do teletrabalho, muitas áreas rurais e bairros periféricos ainda enfrentam internet instável ou inexistente. Essa lacuna impede agricultores de acessar dados climáticos e jovens de participar de aulas online. A expansão de redes de fibra e 5G precisa incluir regiões de menor retorno econômico para as operadoras. Incentivos fiscais e programas estaduais de conectividade rural podem reduzir o descompasso. Caso contrário, a economia digital avançará de forma desigual, aprofundando barreiras sociais.
3. Escassez de mão de obra qualificada em tecnologia
O avanço das agrotechs, startups e polos de inovação esbarra na dificuldade de contratar desenvolvedores, analistas de dados e técnicos especializados. Cursos técnicos e universitários nem sempre acompanham a velocidade do mercado. Há risco de empresas migrarem para centros onde o talento esteja mais disponível. Programas de qualificação rápida e incentivo à permanência de jovens no interior são fundamentais. Parcerias com universidades e hubs de inovação podem criar trilhas formativas integradas às necessidades regionais.
4. Infraestrutura logística ainda concentrada nas grandes rodovias
O escoamento da produção e a mobilidade dos trabalhadores continuam dependentes de poucos eixos viários. Estradas vicinais malconservadas elevam o custo do transporte e prejudicam pequenos produtores. Falta investimento em terminais intermodais, ferrovias de carga e transporte coletivo de qualidade. Cidades médias já sofrem com congestionamentos e poluição sem planejamento de mobilidade sustentável. Melhorias estruturais são urgentes para garantir competitividade e reduzir impactos ambientais.
5. Financiamento e apoio para pequenos produtores
A modernização agrícola avança, mas nem todos têm acesso às ferramentas necessárias. Pequenos agricultores enfrentam juros altos e exigências burocráticas para conseguir crédito. Sem apoio, eles ficam de fora de programas de rastreabilidade e certificações ambientais, perdendo mercado. Cooperativas e linhas de microcrédito podem democratizar o acesso à tecnologia. A assistência técnica pública também precisa ser fortalecida para garantir competitividade a todos os elos da cadeia produtiva.
6. Baixa integração entre cultura e políticas de desenvolvimento
O calendário de eventos culturais cresce, mas muitas iniciativas são isoladas e dependem de verbas pontuais. Sem continuidade, o impacto econômico e social se perde. Falta integrar cultura a estratégias de turismo, educação e empreendedorismo criativo. Planos municipais de cultura, com metas plurianuais e incentivos a produtores locais, poderiam criar um ecossistema sustentável. A ausência dessa visão de longo prazo pode fazer com que o potencial da economia criativa seja subaproveitado.
7. Desafios na implementação da telemedicina
A telemedicina tem potencial para reduzir filas e ampliar o acesso, mas muitos municípios não têm infraestrutura mínima para garantir consultas online de qualidade. Há carência de equipamentos, conexão estável e protocolos clínicos padronizados. Profissionais também precisam de capacitação para utilizar ferramentas digitais com segurança. Sem essas condições, corre-se o risco de ampliar desigualdades em vez de solucioná-las. Investimentos coordenados e consórcios regionais podem acelerar a integração.
8. Descompasso entre inovação e legislação
Empreendedores relatam dificuldades para homologar projetos de energia limpa, instalar pontos de carregamento para carros elétricos ou implantar soluções de mobilidade compartilhada. A burocracia e a falta de normas atualizadas atrasam a chegada de novas tecnologias. Cidades inovadoras precisam de marcos regulatórios mais ágeis e ambiente favorável ao investimento. Caso contrário, soluções criadas no interior podem migrar para outras regiões mais receptivas.
9. Pressão imobiliária e perda de identidade cultural
O crescimento urbano e a especulação imobiliária avançam sobre áreas de preservação e zonas tradicionais. Vilas e bairros históricos correm o risco de descaracterização. A ausência de planos diretores atualizados e políticas de proteção patrimonial agrava o problema. É preciso conciliar desenvolvimento urbano com a preservação da memória e da biodiversidade local. Sem esse equilíbrio, o interior pode perder justamente aquilo que o torna único.
10. Baixa articulação regional e cooperação entre cidades
Muitos municípios ainda atuam de forma isolada em temas estratégicos como saúde, inovação e turismo. Consórcios regionais poderiam compartilhar custos de equipamentos, atrair investimentos e promover ações integradas de marketing territorial. A cooperação entre cidades vizinhas fortalece a economia de escala e dá mais peso político às demandas junto ao Estado. A ausência dessa articulação enfraquece o potencial coletivo do interior.
