OVALE é ‘grafitado’ como farol diante de fake news

Xandu Alves – O Vale 

A luz da informação nas cores da arte. No hall principal da sede de OVALE, em um edifício na zona oeste de São José, o jornal inaugura painel do artista plástico e grafiteiro Alemão Art, nome artístico de Anderson Ferreira Lemes, 37 anos, de Assis (SP).

Após 25 horas de trabalho, em um final de semana de setembro, ele criou uma alegoria em grafite em um espaço de 27 metros quadrados, na parede de entrada da sede.

Ali, Alemão mistura referências do jornal e da história do Vale do Paraíba, combinando ao seu estilo artístico, com elementos lúdicos e um pé no surrealismo.

A obra ganhou o nome de “A liberdade iluminando o povo”, referência à pintura “A liberdade guiando o povo”, do francês Eugène Delacroix (1798-1863).

Pintado em duas paredes, o mural traz os pilares do jornalismo, como a luz do conhecimento, a visão crítica e a independência editorial.

“O símbolo da luz dialoga com a missão do jornal de servir de guia para a sociedade rumo a um porto seguro de credibilidade, de informação de qualidade. É a luz transformadora da verdade”, diz o editor-chefe de OVALE, Guilhermo Codazzi.

O mural é cheio de símbolos

Um farol ‘ilumina’ os personagens e serve de analogia para o papel do jornal, o de iluminar a sociedade em tempos obscuros. De ser a luz da informação diante da avalanche de notícias falsas, boatos e ataques à liberdade de imprensa.

Não à toa, o farol apoia-se no globo terrestre e lança conhecimento de um lado, projetando-se através do logotipo do jornal, em design translúcido, e no outro lança luz sobre a cabeça de um personagem sem rosto. No chapéu, a lâmpada mostra um mundo aberto pela informação. “As referências que usei no painel foram a história do jornal e a do Vale, além da questão do papel do jornal nos dias de hoje”, diz Alemão.

“Ter uma obra desse nível na recepção do jornal nos prova que OVALE está sempre à frente das tendências”, disse o galerista Victor Hugo Rosa, da Galeria Victor Hugo, parceira do jornal no projeto.

‘Alemão tem linguagem própria e é um dos maiores da street art’, diz galerista

Proprietário da galeria que leva seu nome, instalada no Colinas Shopping, Victor Hugo Rosa ressaltou a iniciativa de OVALE de decorar o saguão de entrada da sede com um mural de grafite de Alemão, artista representado pela galeria no Vale do Paraíba. Segundo ele, a meta é difundir a arte do grafiteiro e artista plástico e coloca-lá em destaque em “pontos importantes da cidade, e assim consideramos a recepção do jornal OVALE”.

“Foi uma honra e prazer realizar esse trabalho junto com o Alemão. Acreditamos no potencial de sua arte e em sua crescente valorização no cenário de artes plásticas, nacional e internacional.”

Sobre Alemão, o galerista explica que ele possui uma linguagem própria que agrada a todos, sendo considerado um dos principais nomes da street art (arte de rua) no Brasil. “Temos imenso prazer e satisfação em representá-lo no Vale do Paraíba”, afirmou

Para o próprio Alemão, a arte tem papel fundamental nos dias de hoje, cheios de violência: “O maior protesto é falar de amor e é pintar temas que remetem a amor e infância. O mundo está carente disso. Os artistas têm o dever de explorar essa arte”.

Leia mais da entrevista:

Entrevista com Anderson Ferreira Lemes, o Alemão Art

O grafiteiro e artista plástico Alemão Art diz que começou a grafitar logo aos sete anos, sem mesmo saber o que estava fazendo.

“Fazia outras coisas que não eram com spray. Esmagava plantas e usava para pintar no muro. Quebrava tijolos, giz, tinha muito gesso na época. Fazia grafite ali. Não precisa ser necessariamente com spray. O importante é o conceito, e isso fazia desde criança. O grafite nasceu comigo quando eu nem sabia o que era, surgiu naturalmente”.

Apelidado de Alemão por causa dos cabelos loiros da infância, ele explica que o nome artístico serve-lhe como uma identidade para viver no mundo da arte.

“A arte que eu faço é nostálgica, um portal para voltar no mundo em que vivi, um mundo lúdico, de criações. A mente viaja. Gosto mais do meu apelido do que o nome. Vivo mais no mundo da arte do que no real. O Alemão tenta transmitir isso para outras pessoas, ainda mais num mundo cada vez mais violento”.

Para ele, a arte tem um papel fundamental hoje, de contrapor-se à violência.

“O maior protesto é falar de amor e é pintar temas que remetem a amor e infância. O mundo está carente disso. Os artistas têm o dever de explorar essa arte”.

Para expressar-se em painéis e murais, ele diz que usa como referência outras manifestações artísticas. “Não é só em artes visuais, mas na música e outros elementos da arte em geral. Pego tudo isso que gosto e faço esse aglomerado e coloco na minha arte. Tenho várias referências”.

Sobre o mural que pintou para OVALE, Alemão conta que misturou suas própria identidade artística com a proposta do jornal.

“Questão foi de conseguir encaixar a identidade com a ideia do jornal, que fique agradável, não ofenda ninguém e não perca a minha identidade. É um trabalho autoral. Não perdi o elemento base do personagem. O resultado final foi bacana, de espalhar e colocar em harmonia e esses elementos com a minha arte”.

E qual a expectativa de Alemão para a reação das pessoas frente ao mural? Ele conta: “Quando faço arte, sinto algo muito gostoso, de passar e de sentir algo. A arte tem sentimento. A obra deve ser sentida. Se as pessoas sentirem, meu papel está feito. A arte é muito pessoal e é o que mais me agrada, de escutar as outras pessoas falando da arte. As pessoas são o mais importante, para sentir a arte. A arte é algo que nos tira desse mundo”.

(Matéria publicada originalmente no site de O Vale em 28/9/2019)