Busca de produtividade editorial não leva à perda de qualidade, diz jornalista

O jornalista Marcelo Rech, presidente da Associação
Nacional de Jornais (ANJ), vice-presidente
Editorial do Grupo RBS e vice-presidente
do Fórum Mundial de Editores, afirma que
jornalismo não é uma ciência cartesiana,
mas, sim, uma atividade que combina senso
de responsabilidade, idealismo, precisão,
sensibilidade e criatividade.

Em entrevista ao site Jornalistas & Cia. ele explica como o meio impresso vem se
adaptando às transformações impostas pelo
meio digital e por que acredita que
os jornais tornaram-se um porto
seguro contra a desinformação e a
radicalização, dois efeitos colaterais
do mundo em rede.

Jornalistas&Cia – O pior da crise
da mídia impressa já passou ou
ainda se espera que o ciclo avance,
fazendo encolher ainda mais as
tiragens nessa plataforma?

Marcelo Rech – Há uma tendência à
acomodação da circulação impressa em
patamares mais rentáveis do que no passado
e foco nas regiões em que a publicidade no
print é mais expressiva. Em alguns países
de grandes tiragens, como China e Índia, a
circulação segue em alta, o que pressiona o
preço do papel e exige a rentabilização das
edições. Ressalve-se que, no Brasil, os reajustes de preços dos jornais foram menores do
que nos Estados Unidos, onde a publicidade
subsidiava muito fortemente a circulação. É
importante observar, porém, que jornais não
estão no negócio da impressão de papel,
mas sim no da produção de informação e
conhecimento em todas as plataformas, entre
as quais eventualmente a impressa.

J&Cia – A excelência do conteúdo editorial
é diretamente proporcional à excelência da
equipe. Como enfrentar essa questão diante
dos desafios de equilíbrio orçamentário?
Rech – Em todo o mundo, em todas as
atividades, será preciso fazer mais e melhor
com menos. Nas últimas décadas, desapareceram algumas funções em jornais, mas
surgiram outras, como editor de redes sociais. Quem diria que jornais teriam equipes
e editores de vídeo? O jornalismo evolui e
se transforma como outras atividades – da
engenharia à medicina – e a evidente busca
por mais produtividade editorial não precisa
conduzir à perda de qualidade. Em geral, os
jornais são mais vibrantes e esteticamente
mais atraentes do que décadas atrás. Além
disso, bons gestores alocam adequadamente
os recursos, sempre escassos, naquilo que
os veículos sabem fazer de melhor e no que
podem de fato se diferenciar em um mundo
de superoferta informativa. Hoje, há mais
seletividade na escolha do que cobrir, o que
gera mais hierarquia e foco. O desperdício
de apuração, que era alto no passado, caiu
muito. O que não é usado no impresso, por
exemplo, pode ser expandido ou tratado com
outras linguagens nas versões digitais.
Na área comercial, fez recentemente um
acordo com a Folha de S.Paulo para bancar
o primeiro ano de assinatura do jornal para
professores da rede pública de ensino. Depois
desse período, a Folha dará um desconto
permanente de 33% a quem continuar com
a subscrição. A parceria com a Folha vem na
esteira de um produto chamado Assine com
o Google, por meio do qual leitores precisam
preencher apenas algumas poucas etapas
para se tornarem assinantes de um veículo
parceiro. Com isso, a leitura da publicação
pode ser feita de qualquer dispositivo conectado à mesma conta do Google associada à
assinatura.
Com isso, milhões de pessoas que já têm
uma conta de e-mail ou de outros serviços
do Google passam a ser potenciais assinantes.
Sete parceiros latino-americanos já adotaram
o Assine com o Google: Diários Associados,
Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo, O Globo e
O Estado de S. Paulo, do Brasil; Reforma, do
México; e La Nación, da Argentina.
O Google também lançou o serviço News
Consumer Insights na América Latina. Ao longo de 2018, mais de 500 profissionais foram
treinados no Brasil para implementação da
ferramenta. Com ela, qualquer veículo pode
receber informações detalhadas do Google
Analytics, com dados sobre o comportamento dos leitores que podem ser usados para tomar decisões comerciais mais certeiras. “Em
um ano, depois de seguir as recomendações
oferecidas pelo News Consumer Insights, O
Estado de S. Paulo teve um aumento nas assinaturas de cerca de 130%”, diz Pires. “Em 2019
lançaremos uma nova versão da ferramenta
com dados em tempo real.”
Conteúdos enganosos – Tanto Google
quanto Facebook têm tomado medidas para
coibir fake news (notícias falsas), seja atuando
internamente, para identificar o problema em
suas plataformas, seja em cooperação com
outras companhias e instituições. Ambas as
empresas apoiaram, por exemplo, o Comprova, um consórcio de veículos de comunicação brasileiros para descobrir informações
falsas durante a campanha presidencial.
O Comprova foi desenvolvido em colaboração pelo First Draft, um projeto do Centro
Shorenstein na Escola Kennedy de Harvard,
pela Abraji, pelo Projor (Instituto para o
Desenvolvimento do Jornalismo), pela ANJ
(Associação Nacional de Jornais) e por 24
organizações jornalísticas.
“Busca de mais produtividade
editorial não precisa conduzir
a perda de qualidade”

J&Cia – Como combinar juventude e
experiência em tempos tão desafiadores
para o jornalismo, pensando em questões
como carreira, salários, tecnologia, multiplataformas etc.?

Rech – A tendência mundial é pela convergência e integração, não pela desintegração
de redações, o que exige profissionais mais
versáteis. Mas jamais haverá substituto para
o talento. Jornalismo não é uma ciência
cartesiana, mas, sim, uma atividade que
combina senso de responsabilidade, idealismo, precisão, sensibilidade e criatividade.
A experiência de quem já vivenciou muitos
percalços e armadilhas é fundamental para
inspirar as gerações mais jovens, além de
permitir a melhor contextualização de fatos
e análises, fundamental para a diferenciação
dos jornais. A combinação da juventude, ousadia e tecnologia com a experiência ajuda
a evitar erros e libera energia interna para a
inovação constante.

J&Cia – Quais as principais medidas adotadas pelos jornais para manter seus leitores?

Rech – Os jornais vêm há tempos
reforçando seus focos para identificar e
assumir personalidades únicas. Singularidade
tem sido um elemento essencial para
fidelizar os leitores e cobrar pelos conteúdos.
A especialização – fazer bem algo que
mais ninguém faz – é um importante
diferencial para esse posicionamento. Outro
é a pluralidade, ao trazer diferentes visões e
opiniões sobre uma mesma situação. Esses
dois princípios – exclusividade e pluralidade
– são os caminhos dos jornais para se
distanciarem da superoferta informativa e das
bolhas de opiniões das redes. Informação
crível e exclusiva e multiplicidade de opiniões
são bens cada vez mais escassos no planeta,
e são exatamente o produto dos jornais. Ou
seja, jornais tornaram-se um porto seguro
contra a desinformação e a radicalização,
dois efeitos colaterais do mundo em rede.
J&Cia – Quais os planos para ampliar sua
audiência, seja nos meios tradicionais, seja
nos digitais?

Rech – Os jornais ainda precisam apregoar melhor suas virtudes, como a de serem
o antídoto contra a desinformação. Neste
novo mundo de abundância informativa e
comercial, as relações se estabelecem cada
vez mais a partir da confiança nas marcas.
Jornais foram e são erguidos sobre pilares
de confiança e, assim, suas marcas tendem a
atrair quem não deseja ser iludido por notícias
falsas ou teme o estreitamento intelectual
provocado pelas bolhas digitais. O caso do
The New York Times, que passou dos 3,5
milhões de assinantes – recorde absoluto em
sua longa história – é emblemático. O fim das
barreiras geográficas de distribuição amplia
muito o alcance dos jornais.

J&Cia – Quais as principais fontes de receita
dos jornais atualmente?

Rech – De uma forma geral, a maior parte
vem da circulação, de pessoas dispostas a
pagar por receber informação de qualidade,
diferenciada e única. Na Europa, antes da
internet, cerca de 80% da receita já vinha de
circulação. Por isso, os jornais foram menos
atingidos pela queda na publicidade. No
Brasil, essa equação era meio a meio, em
geral, e a receita originada dos leitores vem
ganhando espaço. No entanto, a publicidade segue muito relevante, agora com uma
perspectiva de complementaridade. É muito
difícil para uma marca se estabelecer apenas
no ambiente caótico e pouco confiável das
redes. Para isso, ela precisa estar presente
em diferentes plataformas. E, por todas as
pesquisas, o jornal está entre os meios mais
confiáveis, uma percepção que se transfere
para os anunciantes.

J&Cia – Hoje, mais do que nunca, exige-se
do jornalismo uma atuação mais vigorosa e rigorosa, diante da enxurrada de notícias falsas
mundo afora. Isso requer equipes altamente
preparadas para desafios tão complexos. Os
jornais estão respondendo à altura a esses
desafios?

Rech – Ainda há muito espaço a ser
ocupado pelos jornais. O jornalismo faz
fact-checking por natureza, mas é preciso
deixar mais claro esse papel exercido pelos
jornalistas profissionais, que compartilham
em escala mundial técnicas e valores éticos
comuns à profissão. Precisamos deixar mais
claro, em última análise, que estamos no
ramo do acerto, enquanto no submundo
digital muitos estão no ramo do erro. Nos
jornais, acreditávamos que essa percepção
externa viria por gravidade, mas, diante do
desafio gigantesco da desinformação, é preciso acelerar procedimentos e atitudes. Para
isso, os jornais terão de ser cada vez mais
verificadores de fatos do que apuradores de
notícias comuns. O jornalismo do futuro será
reconhecido como o certificador profissional
da realidade.